Wednesday, December 31, 2008
Monday, November 03, 2008
André Forastieri
http://andreforastieri.com.br/
Tuesday, May 13, 2008
História do Núcleo Laudelina de Campos Mello da Educafro Minas
Escrevi o texto abaixo para o III Encontro de Cultura e Cidadania da Educafro Minas, que ocorreu entre os dias 25 e 27 de abril, na minha cidade natal. É um texto de apresentação para o núcleo da Educafro em Poços de Caldas; foi bacana redigi-lo porque exigiu alguma pesquisa, embora já soubesse muitas informações. O texto foi entregue em uma pasta junto a outros materiais para os participantes do encontro. Tive impressão que foi pouco lido, por isso o disponibilizo aqui. Além disto, pode ser que algum dia sirva como material de referência para alguém. Revisei levemente o texto para sua leitura ficar mais clara, mas foram apenas duas pequenas correções. Apesar de apoiar o trabalho da Educafro, sempre manifestei minha opinião contrária às cotas no vestibular – uma das bandeiras da Educafro é justamente o sistema de cotas.
A idéia de se montar um núcleo da Educafro em Poços de Caldas nasceu em reuniões de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), das quais participavam movimentos sociais e indivíduos atuantes na esfera religioso-comunitária. A proposta de inclusão social através da educação superior e com enfoque na cidadania – desenvolvida pela ONG de âmbito nacional Educafro, fundada pelo Frei David Raimundo dos Santos – foi abraçada pela ONG Credhep (Centro Regional de Direitos Humanos e Educação Popular), que se identificou com um curso pré-vestibular autogerido e com professores voluntários. O Credhep então avaliou se adotaria o sistema dos Salesianos ou da Educafro, decidindo-se por este último e adotando a apostila da Educafro de São Paulo.
O núcleo da Educafro em Poços de Caldas teve como ponto de partida uma reunião na Paróquia do Sagrado Coração em meados de 2003. Nesta reunião se apresentaram voluntários para coordenadores e principalmente para professores; as aulas tiveram início no dia quatro de agosto de 2003. É importante frisar que além de apartidário (mas não apolítico), o corpo de voluntários desde sempre possuiu pessoas de outras religiões não-católicas, além de ateus e agnósticos.
O núcleo da Educafro em Poços de Caldas até hoje é mantido pelo Credhep, que já havia apresentado com sucesso o projeto de implantação do Conselho Tutelar dos Direitos da Criança e do Adolescente na cidade, no início dos anos 1990. Os membros do Credhep viram na Educafro a chance de implantar um projeto de educação popular na cidade, um objetivo que existia desde o início da ONG e que está expresso em seu nome. Muitos coordenadores pertencem o Credhep e estão neste trabalho desde o início, enquanto inúmeros profissionais deram sua contribuição a este trabalho, atuando como professores e coordenadores enquanto foi possível. No início, o Colégio Jesus Maria José abrigou a Educafro em Poços de Caldas.
A primeira turma de 80 alunos do segundo semestre de 2003 teve vestibulandos que passaram em universidades prestigiadas como a Unicamp, Unesp e Unimep. Desde então, vários alunos já entraram na universidade e se formaram, mas alguns voltaram para a Educafro como voluntários; seja na coordenação, seja como professores, inclusive em outros núcleos, demonstrando que o senso de solidariedade, bem comum e cidadania da Educafro foi bem absorvido por muitos.
Em 2006, o núcleo da Educafro em Poços de Caldas transferiu sua filiação para a coordenação de Minas Gerais, mantida pela Casa de Santo Antônio, passando a adotar as apostilas elaboradas pela UFMG. Em agosto de 2007 as aulas passaram a acontecer em instalações do antigo Colégio São Domingos, cedido pelas irmãs dominicanas. Neste tempo todo, a Educafro atendeu uma média de 80 alunos por ano, e estudantes que passaram pelo cursinho ingressaram em outras universidades públicas, como a Ufop e a USP, além de conquistarem bolsas em universidades particulares como a PUC.
Os voluntários do núcleo de Poços de Caldas têm consciência, no entanto, que esta ação social tem percalços: muitos afrodescendentes que poderiam estar freqüentando as aulas não estão no Educafro porque sequer concluíram o ensino médio, devido às desigualdades sociais bem conhecidos de todos; desde ao menos 2004 há o problema de evasão de alunos e de professores que não podem comparecer com a freqüência necessária às aulas; e devido às dificuldades econômicas e até mesmo familiares, poucos alunos ingressam em universidades públicas. Entre os que passam no vestibular, a maioria ingressa em faculdades particulares, devido à uma particularidade regional: a única universidade pública da região, a UEMG, oferece apenas o curso de pedagogia. Entretanto, sabemos que o trabalho paciente é a chave de transformação da sociedade para que tenhamos um mundo mais justo. Por isso núcleo da Educafro na cidade homenageia em seu nome a líder feminista Laudelina de Campos Mello (1904-1991), que nasceu em Poços de Caldas. Após uma vida de privações, ela conseguiu superar as humilhações que sofreu por ser negra e fundou o primeiro sindicato de domésticas do país, em Campinas, onde faleceu como um símbolo da luta contra o racismo e o machismo. Antes foi eleita Chefe do Departamento de Sociologia, da Pontifícia Universidade Católica – PUC, no Rio de Janeiro, por reconhecimento de sua competência. É neste exemplo em que nos miramos.
Thursday, August 30, 2007
Strange love makes the world goes round
She was mad with me. No matter what I say, she gets angrier. So I leave for good. I still have some regrets, but we have to make bad choices sometimes. Two months after drifting around on the countryside, sleeping on bench squares and begging for food when my savings were completely drowned, I came back home. She disappeared.
In the kitchen, drinking some coffee while looking for food that remained within the validity date, I turned on the news and heard about a pitbull who was shot dead after attacking an elder man in a neighboring city. It was her; I felt in my heart.
Monday, August 27, 2007
Não por acaso...
Assim que puder, ponha as mãos em Não por acaso
Por Daniel Souza Luz
Quando este jornal sair, o filme Não Por Acaso não deverá mais estar em cartaz nos cinemas, mas vale a pena procurá-lo em DVD, assim que estiver disponível. É o longa-metragem de estréia do cineasta Philippe Barcinski, diretor do marcante curta-metragem Palíndromo e de outros curtas experimentais. Não Por Acaso tem um ponto de partida já um tanto desgastado, o da tragédia que reúne pessoas, para narrar uma história quase rarefeita. Por isso mesmo, é surpreendente que seja tão prazeroso de se assistir.
O filme tem como personagens centrais Pedro (Rodrigo Santoro) e Ênio (Leonardo Medeiros), dois homens extremamente conservadores; não no sentido político, mas pessoal. O primeiro é convicto: segue a profissão do pai (fabricante de mesas de sinuca e jogador profissional do esporte) e gosta tanto de manter tudo como está que pressiona a namorada Teresa (Branca Messina) a morar na casa onde sempre viveu. O segundo é marcado pela covardia: esconde-se do mundo após o fim de uma relação amorosa e também da filha Bia (Rita Batata), resultado deste relacionamento.
No entanto, a imprevisibilidade da vida os tirará da situação estável a que aspiram. Apesar das ações de um influenciarem a vida do outro e vice-versa, o roteiro tem o mérito de não forçar absolutamente nenhum encontro dos personagens. Outro grande destaque são as interpretações, sutis e contidas. O elenco também conta com Letícia Sabatella, Cássia Kiss e Graziella Moretto.
Daniel Souza Luz é jornalista
Friday, February 02, 2007
Entrevista com Ignácio de Loyola Brandão
O araraquarense Ignácio de Loyola Brandão deve ser conhecido de todo amante da literatura. Sua carreira enveredou pelo romance, conto, crônicas, biografias, relatos de viagens e até por uma incursão pela dramaturgia. Zero, Não Verás País Nenhum, O Anônimo Célebre e outras obras de Brandão são clássicos da literatura brasileira contemporânea. Depois de superar um aneurisma, fato que relata em Veia Bailarina (1997), ele continua produzindo muito até hoje, com bom humor. Repare no final da primeira resposta para ver como ele superou bem a experiência traumatizante de estar perto da morte.
(Texto e entrevista: Daniel Souza Luz)
O senhor já esteve em Poços de Caldas antes, em palestras no Instituto Moreira Salles, chamou a atenção de forma inédita para o trabalho de Jurandir Ferreira – quando ele ainda era vivo – em uma matéria na revista Veja e tem um bom relacionamento com o escritor Chico Lopes, que reside na cidade. Ou seja, tem alguns laços com Poços. Portanto, o que espera de participar da II Feira do Livro de Poços de Caldas com relação ao público e o que pretende abordar em sua palestra?
Ignácio de Loyola Brandão - Daniel, minha relação com Poços de Caldas começou com uma tia que foi passar a lua de mel aí, tirou fotos na Fonte dos Amores e voltou muitas vezes. Um dia, voltou sozinha, o marido ficou com a camareira do hotel. Poço para mim ficou como uma coisa de pecado, de perdição, de fascínio pelo proibido, porque éramos proibidos de tocar no assunto, parece que a tal tia era frígida. Depois veio a ligação com Chico Lopes - um autor diante do qual o Brasil ainda vai se curvar - grande cabeça, grande contista, grande indignado, íntegro, uma pessoa que não faz concessões, luta contra a mediocridade reinante. E paga um preço por isso. Claro, tem também o IMS que lançou meu Caderno. Nutro uma relação amigável, fraterna, intensa com o [Antonio Fernando] De Franceschi (nota: superintendente executivo do Instituto Moreira Salles) e a obra que ele vem realizando (além de sua poesia, evidente). Outra relação muito boa tenho com Mario Seguso, o vidreiro. Um criador dessa envergadura, um homem rutilante, esfuziante, bom de papo, bom de sopro, bom de alma, bom de imaginação e delírio. Quanto a esperar da Feira, espero o usual. Que ela aconteça, que tenha público, que os escritores se saiam bem, que as pessoas freqüentem, conversem, perguntem, comprem. O essencial é: a feira está sendo feita. Uma, duas, três. Quanto mais feiras, bienais, melhor para a literatura, o livro, o escritor, o leitor, o professor, o país. Ainda bem que Poços está fazendo a sua segunda. Marcarei meu lugar para a décima, a vigésima, a centésima (Me diga, quantos anos a gente vive mesmo? A expectativa de vida tem crescido, não?).
Apesar de sua carreira ter início nos 1960, acredito que foi na década de 1970 que seu trabalho despontou. O senhor acha que hoje um romance como Zero, que tem uma estrutura diferenciada, mais complexa, faria sucesso em uma época em que as mídias eletrônicas têm muita atenção, ou seja, em que o ato de pensar talvez esteja sendo mais mastigado?
Ignácio - Como saber se Zero faria sucesso? Difícil, é um livro especial, uma explosão de um momento, é um retrato de um Brasil implodido. Mudam os contornos, continua a moldura. Não temos mais a ditadura, mas temos a economia apertada, o desemprego, a miséria, a demagogia de um presidente que fala, fala, fala, fala, fala, fala, fala, fala... Será que Zero faria sucesso num tempo de Código da Vinci, Harry Potter, Paulo Coelho, Zibia Gaspareto, Michael Crichton, e tantas edições sobre Oriente, Irã, Cabul (quem ainda agüenta Cabul?)? No entanto, Zero continua a ser vendido, a ser lido por jovens - 30 anos depois, olhe lá - o que mostra que ele foi escrito para durar e que ao quebrar todas as regras da narrativa convencional estava mostrando que a literatura deve ser feita com muita liberdade, mas muita.
Por falar em mídia: quando o senhor lançou o Anônimo Célebre, em 2002, entrevistei o senhor a respeito de passagens do livro que pensei que eram totalmente ficcionais, pois quase não assisto televisão, mas o senhor me falou que eram baseadas no que se via na TV. O senhor acha que a baixaria, a busca pela fama a qualquer preço e a fofoca ficaram ainda piores atualmente em uma TV aberta que quase sempre foi de péssima qualidade, talvez com o Youtube e demais mídias eletrônicas representando um papel nesse sentido?
Ignácio – O surto pela celebridade prossegue. O surto pela cretinice continua. A idiotice impregna tudo. BBB ainda tem audiência, como também o Gugu Liberato e o Gilberto Arghhh Barros. Outro dia um escritor jovem me perguntou como fazia para promover seu livro, queria ficar famoso logo. Perguntei sobre o que era o livro, ele disse que não sabia, ainda não tinha escrito. Na verdade, emendou, quero saber se é mais fácil ficar famoso com livro, com televisão, com cinema. Dizer o que quando a estupidez prevalece? Veja só como as coisas funcionam. Que filmes a Cicarelli fez? Que novelas? Que peças? Que desfiles ultimamente? Que comerciais? Não sabe responder por que ela não faz nada, vive de mídia, vive de amassos na praia, vive da glória fugaz do Youtube. Ela é o maior símbolo da filosofia atual. Síntese de tudo.
Sua obra é extensa e versátil. O senhor inclusive já enveredou pela dramaturgia. Há uma preferência por algum gênero em especial?
Ignácio – Se o tema dá crônica, faço com o maior prazer. Se dá romance, tento. Se é conto, tento. Minha preferência é o assunto, o tema, o homem brasileiro, as condições de vida neste país, a solidão, a angústia, o vazio existencial. Refletir tudo isso na literatura.
No fim dos anos 1970, o senhor lançou um livro sobre Cuba. Fernando Moraes e Frei Betto também lançaram obras a respeito, e portanto muitos leitores brasileiros têm algum conhecimento sobre a vida naquela ilha. Hoje, com os clamores pela democracia, o desrespeito aos direitos humanos pelo qual o regime de Fidel Castro é constantemente denunciado, o enfraquecimento de Fidel e o fato de seu irmão assumir o poder tal como uma monarquia, há como fazer um retrato simpático da ilha?
Ignácio – Não sei como fazer um retrato simpático da ilha. Tudo o que posso dizer é que Fidel (como o Lula) esmagou os sonhos de uma geração. Com ele, um dia, acreditamos que a condição social e econômica das pessoas podia ser mudada. Ele não mudou, perdeu o trem da história. Não percebeu que tinha realizado um feito enorme, mas fechou-se dentro desse feito, segregou-se, julgou-se Deus, assim como Stalin, Mao, Hitler, Mussolini. Não viu o mundo se transformando. Fidel apodreceu e levou junto seu pobre povo. Tenho a maior simpatia pelos cubanos e lamento o que estão passando. Um povo bonito, alegre, trabalhador - trabalhou muito, e para que? -, musical. Esmagado. Aquele povo, com quem tive contato durante 40 dias seguidos, não merece o castigo que está sofrendo. O dilema é: e se os americanos ocupam Cuba outra vez? Fidel matou Cuba tanto quanto o ditador Batista que ele depôs.


