Tuesday, May 24, 2011

Reminiscência

"As entranhas do poder não são bonitas", Eduardo Jorge Caldas Pereira.

Acabei de ver um documentário, O Inimigo do meu Inimigo, sobre como Klaus Barbie ficou impune por décadas e como a extrema-direita persistiu em governos ocidentais. Barbie é o nazista conhecido como o "Carniceiro de Lyon" por sua crueldade ao torturar membros da Resistência francesa. Logo no começo, uma de suas vítimas relembra como ele apontou seu revólver para crianças ao irritar-se com a calma de seu pai.
Isso lembrou-me imediatamente de algo que testemunhei em 2008, quando comecei a trabalhar no poder judiciário. Em uma das primeiras audiências em que trabalhei, ao final dos depoimentos, um dos três réus confessos de um furto (lembro-me até do que foi furtado: guitarra e amplificadores), já solto, questiona o juiz: "Os policiais entraram na minha casa apontando as armas para o meu filho, o senhor acha que é justo que uma arma seja apontada para uma criança?". Resposta, ríspida: "Você não fez? Fez, não fez? A culpa é sua". Nos dois anos seguintes, ouvi o mesmo magistrado elogiar diuturna e efusivamente a ditadura militar no Brasil. Não vi ninguém, a não ser eu, quando esse papo furado foi dirigido a mim, o confrontar sobre esta posição antidemocrácita no período em quem trabalhei lá. Todos ouviam quietos, ou concordavam. Em outra ocasião, o mesmíssimo magistrado perguntou-me se eu era judeu. Respondi que não, mas que se fosse descendente de judeus isso me era indiferente. No dia seguinte me pediu desculpas pela pergunta, que achei esquisita, mas que não me ofendeu, claro. Disse-me que isso lhe havia tirado o sono. Duvido.
Klaus Barbie e inúmeros outros criminosos de guerra nazistas refugiaram-se na América Latina após o término da Segunda Guerra Mundial, inclusive no Brasil - caso de Joseph Mengele, o Anjo da Morte. Foram bem acolhidos pelas ditaduras militares que assassinaram e torturaram impunemente.

Thursday, March 18, 2010

É de dar medo

Volta e meia lemos a respeito de absurdos sobre os quais não nos manifestamos, seja por falta de tempo, seja por desânimo. No entanto, quando li que um juiz condenou um casal por educar os filhos em casa, isso calou fundo, pois atualmente trabalho no poder judiciário. Deve ser um pesadelo kafkaniano ser condenado criminalmente por apenas pensar e agir fora dos padrões, como se ainda estivéssemos na ditadura. Escrevi um e-mail para a Folha de São Paulo, jornal no qual li sobre o caso, e o texto foi publicado na íntegra no Painel do Leitor, dois dias depois (em 8/3/2010). Creio que resumi bem o que penso a respeito.

""Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques". Este é o texto do artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Que também diz que "os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos" (artigo 26). Ao criminalizar, ainda que de forma simbólica, pais que deram instrução adequada a seus filhos - como comprovam as notas obtidas em prova elaborada por instituição estatal competente - , o Judiciário desrespeita os direitos humanos ("Juiz condena pais por educar filhos em casa", Cotidiano, 6/3). Entendo a posição da educadora Neide Noffs de que o ensino domiciliar pode e deve ser desencorajado, mas criminalizá-lo é um absurdo evidente." DANIEL SOUZA LUZ (Poços de Caldas, MG)






Sunday, January 10, 2010

Meu primeiro set como DJ


Abaixo está o setlist do que discotequei no Zica Braba Sound System, que rolou na casa do Rafa no dia 09/01/2010. A idéia era mandar roots reggae, dub, rocksteady, skinhead reggae e ska, como dizia o flyer, mas como não tenho muita intimidade com esses gêneros (em especial com skinhead reggae), toquei o que curto. Ia tocar uma música do Karnak, O Mundo, mas o CD deu pau, e tive que abreviar meu set e cortar uma música do Joey Strummer porque o DJ Quintino, que é profissional de verdade, apareceu e estava pilhado para tocar psy/trance. Como teve essa mudança de gênero, aproveitei para tocar duas músicas do Bad Brains que são punk/hardcore, porque é mais a minha cara:

Long Long Winter - Bob Marley

Sun is Shining - Bob Marley

Redemption Song - Joey Strummer and the Mescaleros (original do Bob Marley)

Train to Skaville - Ethiopians

Engine 54 - Ethiopians

Coma Girl - Joey Strummer and the Mescaleros

Stir it Up - Bob Marley

Get Down Moses - Joey Strummer and the Mescaleros

Is This Love? - Bob Marley

Silver and Gold - Joey Strummer and the Mescaleros

I Luv I Jah - Bad Brains

Long Shadow - Joey Strummer and the Mescaleros

Overs the Water - Bad Brains

Arma Aloft - Joey Strummer and the Mescaleros

King Bunny - Dub Narcotic Sound System

Ramshackle Day Parade - Joey Strummer and the Mescaleros

Why Don't You Just Be Happy? - White Frogs

All in a Day - Joey Strummer and the Mescaleros

I Luv I Jah - Cave In (original do Bad Brains, eu editei e pus efeitos na música, devia ter gravado)

Burnin' Streets - Joey Strummer and the Mescaleros (dá para ver que fez sucesso, as pessoas vinham me perguntar o que era, toquei o disco Streetcore quase inteiro)

Sailin' On - Bad Brains

Pay to Cum - Bad Brains

Sunday, September 13, 2009

É rápido, viu?

Após meses de abandono desse blog, retomo-o. Fiz um micrometragem experimental para o festival Celucine, mas não sei se concorri. Mais explicações no texto do Youtube ao lado do vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=-i6nVFVBshE

Wednesday, December 31, 2008

Manual do Minotauro



Laerte, o melhor quadrinista que há, mais genial ainda:

http://manualdominotauro.blogspot.com/

Monday, November 03, 2008

André Forastieri

Gênio. O melhor texto do jornalismo brasileiro. Quando era adolescente adorava as barbaridades que o cara escrevia, apesar de nem sempre concordar com as opiniões. Às vezes até discordava muito, mas a inteligência do sujeito sempre me deixou de queixo caído. Relendo algumas críticas e colunas dele há alguns anos, fico impressionado comigo mesmo: na época não ficava chocado, porém hoje me parece que alguns textos são realmente muito cruéis. Mas que se foda. Gênio, agora com um blog:

http://andreforastieri.com.br/

Tuesday, May 13, 2008

História do Núcleo Laudelina de Campos Mello da Educafro Minas

Escrevi o texto abaixo para o III Encontro de Cultura e Cidadania da Educafro Minas, que ocorreu entre os dias 25 e 27 de abril, na minha cidade natal. É um texto de apresentação para o núcleo da Educafro em Poços de Caldas; foi bacana redigi-lo porque exigiu alguma pesquisa, embora já soubesse muitas informações. O texto foi entregue em uma pasta junto a outros materiais para os participantes do encontro. Tive impressão que foi pouco lido, por isso o disponibilizo aqui. Além disto, pode ser que algum dia sirva como material de referência para alguém. Revisei levemente o texto para sua leitura ficar mais clara, mas foram apenas duas pequenas correções. Apesar de apoiar o trabalho da Educafro, sempre manifestei minha opinião contrária às cotas no vestibular – uma das bandeiras da Educafro é justamente o sistema de cotas.

A idéia de se montar um núcleo da Educafro em Poços de Caldas nasceu em reuniões de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), das quais participavam movimentos sociais e indivíduos atuantes na esfera religioso-comunitária. A proposta de inclusão social através da educação superior e com enfoque na cidadania – desenvolvida pela ONG de âmbito nacional Educafro, fundada pelo Frei David Raimundo dos Santos – foi abraçada pela ONG Credhep (Centro Regional de Direitos Humanos e Educação Popular), que se identificou com um curso pré-vestibular autogerido e com professores voluntários. O Credhep então avaliou se adotaria o sistema dos Salesianos ou da Educafro, decidindo-se por este último e adotando a apostila da Educafro de São Paulo.

O núcleo da Educafro em Poços de Caldas teve como ponto de partida uma reunião na Paróquia do Sagrado Coração em meados de 2003. Nesta reunião se apresentaram voluntários para coordenadores e principalmente para professores; as aulas tiveram início no dia quatro de agosto de 2003. É importante frisar que além de apartidário (mas não apolítico), o corpo de voluntários desde sempre possuiu pessoas de outras religiões não-católicas, além de ateus e agnósticos.

O núcleo da Educafro em Poços de Caldas até hoje é mantido pelo Credhep, que já havia apresentado com sucesso o projeto de implantação do Conselho Tutelar dos Direitos da Criança e do Adolescente na cidade, no início dos anos 1990. Os membros do Credhep viram na Educafro a chance de implantar um projeto de educação popular na cidade, um objetivo que existia desde o início da ONG e que está expresso em seu nome. Muitos coordenadores pertencem o Credhep e estão neste trabalho desde o início, enquanto inúmeros profissionais deram sua contribuição a este trabalho, atuando como professores e coordenadores enquanto foi possível. No início, o Colégio Jesus Maria José abrigou a Educafro em Poços de Caldas.

A primeira turma de 80 alunos do segundo semestre de 2003 teve vestibulandos que passaram em universidades prestigiadas como a Unicamp, Unesp e Unimep. Desde então, vários alunos já entraram na universidade e se formaram, mas alguns voltaram para a Educafro como voluntários; seja na coordenação, seja como professores, inclusive em outros núcleos, demonstrando que o senso de solidariedade, bem comum e cidadania da Educafro foi bem absorvido por muitos.

Em 2006, o núcleo da Educafro em Poços de Caldas transferiu sua filiação para a coordenação de Minas Gerais, mantida pela Casa de Santo Antônio, passando a adotar as apostilas elaboradas pela UFMG. Em agosto de 2007 as aulas passaram a acontecer em instalações do antigo Colégio São Domingos, cedido pelas irmãs dominicanas. Neste tempo todo, a Educafro atendeu uma média de 80 alunos por ano, e estudantes que passaram pelo cursinho ingressaram em outras universidades públicas, como a Ufop e a USP, além de conquistarem bolsas em universidades particulares como a PUC.

Os voluntários do núcleo de Poços de Caldas têm consciência, no entanto, que esta ação social tem percalços: muitos afrodescendentes que poderiam estar freqüentando as aulas não estão no Educafro porque sequer concluíram o ensino médio, devido às desigualdades sociais bem conhecidos de todos; desde ao menos 2004 há o problema de evasão de alunos e de professores que não podem comparecer com a freqüência necessária às aulas; e devido às dificuldades econômicas e até mesmo familiares, poucos alunos ingressam em universidades públicas. Entre os que passam no vestibular, a maioria ingressa em faculdades particulares, devido à uma particularidade regional: a única universidade pública da região, a UEMG, oferece apenas o curso de pedagogia. Entretanto, sabemos que o trabalho paciente é a chave de transformação da sociedade para que tenhamos um mundo mais justo. Por isso núcleo da Educafro na cidade homenageia em seu nome a líder feminista Laudelina de Campos Mello (1904-1991), que nasceu em Poços de Caldas. Após uma vida de privações, ela conseguiu superar as humilhações que sofreu por ser negra e fundou o primeiro sindicato de domésticas do país, em Campinas, onde faleceu como um símbolo da luta contra o racismo e o machismo. Antes foi eleita Chefe do Departamento de Sociologia, da Pontifícia Universidade Católica – PUC, no Rio de Janeiro, por reconhecimento de sua competência. É neste exemplo em que nos miramos.